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Futebol
em Quadrinhos
Por
Katchiannya Cunha
E-mail:
katchiannya@abacaxiatomico.com.br
É época de Copa do
Mundo e, querendo ou não, o país inteiro pára e acompanha os jogos da
Seleção. Aproveitando a deixa, não poderíamos deixar de abordar o tema
aqui nesta coluna.
Se por um lado o Brasil
possui uma quase indiscutível tradição no futebol, por outro lado a produção
de quadrinhos 100% nacional é mínima, sendo a maioria do material publicado
por aqui de origem estrangeira. Entretanto, isso não impediu que algumas
vezes o futebol e os quadrinhos nacionais se encontrassem.
O
exemplo mais conhecido é a antiga revista do Pelezinho, dos Estúdios
Maurício de Souza. A revista, que mostrava uma versão infantil de Pelé,
foi fruto de várias conversas entre ele e Maurício de Souza sobre a infância
do jogador. A personagem surgiu em 1976 e ganhou uma revista própria no
ano seguinte. As histórias não fugiam muito do que era visto nas revistas
da própria Turma da Mônica. Foi sucesso por algum tempo até ser
cancelada, talvez por um reflexo de "canarinhofobia" que se abateu sobre
os brasileiros nos longos anos entre o tri e o tetra campeonato. Na década
de 90, tentaram retomar e reatualizar a personagem, mas a empreitada não
deu muito certo.
Mas como não é só
de Maurício de Souza que se vive o mercado de quadrinhos brasileiros,
outros trabalhos sobre o mesmo tema podem ser citados. Em 1998, pouco
antes da Copa da França, a editora Abril, tentando emplacar títulos "genuinamente"
nacionais (como Terra 1), resolveu publicar uma revista em quadrinhos
dedicada à maior paixão nacional chamada Linha de Ataque. A produção
ficou a cargo da Fábrica de Quadrinhos, e, em princípio, a intenção era
uma série mensal abordando o tema.
A
idéia da revista era até interessante: os roteiros seriam escritos e desenvolvidos
por jogadores, cronistas e comentaristas esportivos - ou seja, supostamente
por aqueles que mais entendem de futebol no país. Os desenhos ficaram
a cargo de artistas nacionais bastante conhecidos por seus trabalhos no
exterior, especialmente no mercado americano.
Entretanto, a qualidade
das histórias se mostrou bastante desigual e a revista não passou do primeiro
número. Participaram do projeto os seguintes profissionais: Casagrande
e Roger Cruz, com a história "O primeiro confronto", que mostrava um jogo
de futebol protagonizado por animais, caracterizados para lembrarem os
jogadores da seleção de 98; José Trajano e Cariello, com "Loxa & Três-com-goma";
Armando Nogueira e Marcelo Campos, com "Pelada de subúrbio"; e Marcelo
Fromer e Rogério Vilela, com "Lua, a bola branca do céu".
Eis
que quatro anos depois surge um álbum dedicado ao mesmo tema: Dez na
área, um na banheira e ninguém no gol, publicado pela Via Lettera
Editora. Ao contrário de Linha de Ataque, a produção do álbum ficou
a cargo de artistas especializados em quadrinhos nacionais mais "alternativos".
Em termos de comparação, Dez na área, um na banheira e ninguém no gol
se mostra superior a Linha de ataque, com um acabamento gráfico
e editorial bem melhores, o mesmo podendo ser afirmado em relação à arte
e à diversidade das histórias.
O álbum possui onze
histórias no total, todas abordando o tema futebol, mas sob os mais variados
ângulos possíveis. Lélis, que já foi citado por aqui por seu trabalho
no álbum Saino a Percurá, aborda
a questão do futebol dentro das penitenciárias. Em "Tudo que é redondo
me é estranho", Maringoni lida com o "alien" brasileiro - em outras palavras,
fala sobre quem não é fã de futebol no "País do Futebol". Em "A harmonia
das esferas", Spacca faz um "horóscopo futebolístico". "Caixinha de surpresas",
de Samuel Casal, narra a típica história de um jovem pobre que sonha em
ser tornar um famoso jogador de futebol, mas que vê seu sonho entrar em
confronto com a dura realidade que vive.
Custódio,
com seu "Juvêncio", conta a história da redenção pós-mortem de um goleiro,
cuja carreira foi praticamente destruída por um frangaço numa final de
campeonato. "Deus e o Diabo na terra do futebol", de Leonardo, critica
a figura dos cartolas. Alan Sieber com "Maldita gorduchinha" volta ao
tema da falta de afinidade com o futebol, mas sob a perspectiva de um
"perna-de-pau". "Mesa redonda sexo-futebol debate", de Caco Galhardo,
satiriza as mesas redondas da tv, extremamente presentes em campeonatos
e insuportavelmente presentes em época de Copa. O álbum ainda traz histórias
de Osvaldo Pavanneli e Emílio Damiani, Zimbres, Gabriel Bá e Fábio Moon.
A introdução do álbum foi escrita por Tostão e vale a pena dar
uma conferida, mesmo se você não for fã de futebol mas quer apreciar um
bom quadrinho. Já se você for fã de futebol e quadrinhos, nada melhor
do que unir o útil ao agradável.
Já no País da Copa
- bom, um dos países sede do Mundial, o Japão, a situação é a inversa
do Brasil: a tradição no futebol não existe, apesar dos esforços e boas
intenções. Por outro lado, a tradição nos quadrinhos já é lendária. E
é claro que os japoneses, que se apaixonaram pelo jogo da pelota muito
graças ao brasileiro Zico, e também são loucos por mangá, não deixariam
de juntar as duas coisas.
É muito comum no Japão,
especialmente nos mangás shonen, histórias que envolvam os mais diversos
esportes, desde beisebol e basquete, passando até mesmo pelo sumô(!?),
e é óbvio que o futebol não ficaria de fora. Existem diversas histórias
de autores diferentes sobre o tema. Entretanto, no Brasil apenas uma ficou
conhecida: Super Campeões.
O
mangá não chegou a ser publicado por aqui, mas o desenho foi exibido pela
extinta Rede Manchete, anos atrás. Chamado originalmente de Captain
Tsubasa J, Super Campeões contava a saga de Ozora/Oliver Tsubasa,
cujo maior sonho era se tornar um excelente jogador de futebol, vindo
inclusive a tentar aprender a arte dos gramados aqui no Brasil.
Se por um lado temos
a boa intenção do anime de homenagear o esporte, em especial o futebol
brasileiro, por outro a "dramaticidade" existente na história pouco ou
nada tinha a ver com a realidade dos jogadores e das partidas de futebol.
Volta e meia éramos bombardeados por jogadores mais próximos de super-heróis
que qualquer outra coisa, que sempre jogavam de perna quebrada ou cabeça
rachada. Isso sem falar nas jogadas, que mais pareciam golpes de games
como Street Fighter. Por exemplo: o brasileiro Carlos, jogador
do Flamengo, era famoso por seu fantástico "Chute do Falcão".
Para fãs de futebol
mais fanáticos, Super Campeões pode até ser uma afronta a esse
grande esporte, pois os jogadores mais parecem Cavaleiros do Zodíaco que
jogadores reais. Mas, com boa vontade e descontando (muito) os exageros,
o desenho vale como uma diversão bem descompromissada (bem mesmo!).
Além dos exemplos
citados, existem também as centenas de milhares de charges e tiras de
jornais que tratam do tema, e também se multiplicam em época de Copa.
Agradecimentos especiais
ao Spiderjoca, que colaborou com o artigo. Um abraço e bom final de Copa
para todos. Fonte: Abacaxi Atômico
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